Agora sim?


Na apresentação da moção a levar ao congresso socialista em Fevereiro, Sócrates disse ser "agora sim" tempo para levar à sociedade o debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e propõe a alteração do Código Civil. A minha dúvida é simples: "agora sim"? Depois do PS ter imposto disciplina de voto contra essa mesma proposta há escassos três meses atrás? Depois de ter tido a oportunidade de fazer exactamente aquilo a que se propõe agora? O que é que aconteceu de tão significativo desde Outubro passado que tenha sido capaz de transformar uma disciplina de voto contra em proposta daquilo que se chumbou?

Hoje mesmo, referindo-se às declarações de Manuela Ferreira Leite à RTP, José Sócrates disse que quem muda de opinião sobre o TGV não tem credibilidade. E quem muda de opinião sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo em apenas três meses sem motivo aparente? Terá alguma? Afinal, antes do PS votar contra a igualdade com disciplina de voto imposta, não faltava entre os socialistas quem enchesse a boca com discursos sobre modernidade, recusasse a procriação como imperativo do casamento, sugerisse cerimónias nos Paços do Concelho de Lisboa, estivesse presente no Orgulho LGBT, participasse em debates e sessões de esclarecimento com convidados do país vizinho e até houve um projecto-lei dos "jotinhas" que andou a vaguear durante quase três anos nas galerias e gabinetes de S. Bento. Depois disto tudo, o PS não teve com meias medidas e chumbou aquilo que por palavras defendia. Não foi sequer capaz de dar liberdade de voto aos seus deputados ou ter a inteligência de se abster, que teria sido o gesto coerente de quem dizia estar a favor da proposta, mas não do momento. E os deputados que tanto defendiam a igualdade não tiveram sequer coragem para votarem segundo a sua consciência. A carreira política primeiro, que a igualdade logo se vê...

O comportamento errático não é sinal de credibilidade e o PS não é crível nesta matéria. Já o foi, mas mandou isso pela janela fora quando fez tábua rasa das suas próprias palavras em Outubro passado. E fê-lo sem necessidade. Bastava-lhe ter-se abstido ou dado liberdade de voto aos seus deputados, a bem da coerência e do debate que disse faltar. Em vez disso, preferiu a prepotência de mostrar quem manda, a humilhação de deputados que agem declaradamente contra a sua consciência e a rejeição dos homossexuais, cuja igualdade no acesso ao casamento civil José Sócrates disse não estar na agenda socialista. Três meses depois, parece que já está; três meses depois, a minha resposta continua a mesma: não vou reconhecer no boletim de voto quem não reconheceu os direitos dos meus concidadãos e não me será oportuno votar em quem disse não ser oportuno consagrar a igualdade. Em 2009, não voto PS! Até porque quem já foi cobarde uma vez, pode sempre voltar a sê-lo.

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